Bacalhau… de Portugal ou do Brasil?

29/07/16 | Roberta de Angelis | Cultura e gastronomia

Os Portugueses vieram em primeiro sim, e “mostraram” nossas terras ao resto do mundo, sua vinda ao Brasil, que antes deles não tinha nem este nome, mudou por completo todo o rumo de nossa história, essa história que vivemos hoje, bem ou mal devemos em princípio a eles.

Os mais ricos relatos sobre a forma como os portugueses recém chegados ao Brasil, se relacionaram com a abundância de biodiversidade alimentar da natureza de nossas terras e como conseguiram adaptar seus hábitos a todas as novidades, foram feitos pelos primeiros viajantes que aqui estiveram.

Nestes relatos, a fartura encontrada foi atestada, pois os portugueses nunca tinham visto ou experimentado tal variedade, fartura que mantivemos como cultura, principalmente à mesa.

Na obra “Delicias do descobrimento” de Sheila Moura Hue, nos deparamos com esse fascínio dos lusitanos por nossa vastidão seja por curiosidade ou mesmo pela necessidade da fome, como bem demonstra o relato sobre a passagem de Fernão de Magalhães (famoso navegador português) pelo Brasil em 1520:

“Trocaram com os indígenas um anzol por cinco galinhas, um pente por dois gansos, um espelho por peixe suficiente para alimentar dez pessoas, um cinto por um cesto de mandioca, e por uma carta de um rei de ouros cinco galinhas.”

Mas os índios eram extremamente receptivos com os seus novos “hóspedes” e serviam verdadeiros banquetes aos jesuítas que percorriam o País em suas missões de cristianização dos nativos, com peixinho de moquém assados, batatas, carás, mangarás e outras frutas da terra.

Outros relatos atestam a quase divindade com que eram tratados os frutos nativos encontrados aqui, principalmente a Banana que era considera verdadeiro milagre de Deus pelos portugueses, que ao cortarem o fruto na transversal vislumbravam a imagem de uma cruz. Santa Banana nossa de cada dia!

Da banana muitos pratos foram criados, que fazem parte de nosso cardápio, e caíram no gosto dos brasileiros e dos estrangeiros que aqui estejam de passagem, um deles é a famosa “Cartola”, tradicional de Pernambuco, no nosso Nordeste maravilhoso, é feita apenas com a banana, queijo manteiga (típico daquela região), açúcar e canela, é fruto de uma miscigenação dos portugueses, indígenas e africanos, e de tão tradicional foi elevado a Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado de Pernambuco.

Outra fruta que virou “queridinha” dos lusitanos foi a goiaba, que também enreda doces maravilhosos (principalmente com a utilização da goiabada), e um dos mais famosos, mais conhecidos popularmente é o nosso “Romeu e Julieta”, apenas uma fatia de queijo (de preferência queijo minas) e uma fatia de goiabada (de preferência cascão) e pronto; esse doce típico de Minas Gerais também surgiu na época colonial, quando os portugueses iniciaram sua produção de queijo naquela região ao trazer as primeiras cabeças de gado leiteiro para nossas terras.

Romeu e Julieta, assim como os apaixonados é sim uma combinação perfeita.

E o Abacaxi, tido como o rei das frutas (naturalmente adereçado com sua coroa) pelos portugueses: “são tão saborosos que, a juízo de todos não há fruta neste reino que no gosto lhes faça vantagem. E assim fazem os moradores por eles mais, e os têm em maior estima que qualquer outro pomo que haja na terra.”  – Pero de Magalhães de Gândavo (historiador português).

Os Portugueses trouxeram diversos elementos de sua gastronomia ao Brasil, frutos como figos, marmelos e melões, carnes de vaca, carneiro, porco e galinhas, azeite de oliva, e a junção destes elementos com os nativos aqui encontrados deu origem a uma das cozinhas mais ricas do mundo.

A influência da culinária puramente lusitana também fincou raízes no Brasil e caiu no paladar dos brasileiros.

Em casa criamos o costume de comer bacalhau ao forno à moda portuguesa (a Bacalhoada), com pedaços generosos de lombo de bacalhau (previamente dessalgados em água gelada), intercalados em camadas com batatas (previamente e levemente cozidas), cebolas, tomates, pimentões (dos três tipos) – tudo em rodelas, azeitonas pretas, salsinha, tudo bem regado com muito azeite (já bem aromatizado com alho frito), jogado sobre a “cama” do bacalhau ainda quente e levado ao forno.

bacalhau

Hoje o Bacalhau é um peixe extremamente valorizado, dependendo de sua qualidade e procedência, com preços até mais salgados do que ele próprio, porém sua história nem sempre foi assim, como meu pai sempre fala, antigamente o bacalhau era o refugo das peixarias, peixe de quinta categoria, e de onde surgiu a expressão antiga “Pra quem é bacalhau basta” (para quem é insignificante se serve qualquer coisa).

Buscando o máximo aproveitamento, deste que é um dos meus peixes preferidos, nossa família possui uma receita um pouco mais simples, que chamamos carinhosamente de “Bacalhau de Espuminha”, trata-se de um refogado com base em restos de bacalhau desfiados, batatas, tomate, cebola e azeitonas pretas, misturados a um molho bechamel, que disposto em um recipiente vai ao forno com claras em neve (somente claras batidas sem açucar nem sal) por cima para que a mesma fique crocante e douradinha por cima (por isso a “Espuminha”).

espuminha

Essa receita já nos salvou de muitos almoços às pressas por ser fácil, rápida, e por sempre mantermos em “estoque” de restos de bacalhau desfiado, e principalmente por ser uma delícia!

Muitos outros quitutes portugueses caíram na graça e no gosto dos brasileiros, mas em especial, o tradicional Bolinho de Bacalhau feito com bacalhau, batatas e ovos e fritos até ficarem bem dourados e crocantes, e o Pastel de Belém, composto de uma massa folheada e crocante como base “recheado” de um creme a base de leite, açúcar, farinha de trigo e gemas de ovo, aromatizado com limão e baunilha.

 

 bolinho

 

pasteis

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