COMIDA DE VERDADE NÃO TEM RÓTULO, ASSIM COMO PESSOAS

28/07/16 | Roberta de Angelis | Cultura e gastronomia

Sempre fiz várias dietas na vida, tentando sempre emagrecer, nunca fui super magra, nem obesa, mas como quase 100% das mulheres sempre quero perder os quilinhos extras, com a idade começamos a pensar mais na saúde, e no meu caso que aos 22 anos descobri que estava com minhas taxas de triglicerídeos estavam altas mais ainda.

Vivo a eterna luta de literal “sacrifício” para dieta, pois amo doces, pães e massas (inimigos mortais da luta contra a gordura sanguínea), várias dietas malucas, consultas à nutricionistas e endocrinologistas, sempre começo, mas nunca levo adiante.

Recentemente conheci pela internet uma dieta chamada “Bicho e Planta”, ao ler do que se tratava meu lado “rebelde” gostou de que a mesma não tem regras rígidas e preconiza pela ingestão de COMIDA DE VERDADE (já gostei), comer quando sentir fome, beber água quando sentir sede, comer o que nos da vontade (menos doce, carboidrato e os Processados); já faz quase uma semana e os resultados são ótimos.

Mas além dos reflexos físicos, a relação que mantemos com a comida em nossas vidas nos trazem reflexões muito maiores; Michael Pollan (jornalista norte-americano, autor de sete livros e estudioso da alimentação moderna), quando perguntado sobre o que o ser humano deve comer para ser saudável ao máximo, sempre responde: “Coma Comida”, e é  isso exatamente que devemos entender, é tão simples, COMIDA, mas tem que ser comida de verdade.

“(…) coma comida, o que não é tão simples quanto parece. Pois, enquanto antigamente só se podia comer comida, hoje há milhares de substâncias comestíveis com aparência de comida no supermercado. Esses novos produtos da ciência da alimentação vêm, muitas vezes, em embalagens cobertas de alegações quanto aos benefícios que trazem para a saúde (…)”

O simples acabou virando moda, o normal virou luxo e o natural virou relíquia; Gabriele Hamilton, uma importante chef nova iorquina que partilha da simplicidade das preparações e valoriza o ingrediente também não entende essas inversões da atualidade: “Uma época em que simplesmente plantávamos e comíamos, e não falávamos sobre o assunto. Quando não ficávamos andando pela cidade toda nos vangloriando sobre o artesanal, o local, o orgânico, o blábláblá. Simplesmente íamos à fazenda e comprávamos leite.”

Ponto né? É justamente assim que deve ser o natural, é assim por que é. Nossa missão é simples: vai lá compra comida de verdade, produzida por gente de verdade, cozinha ela de verdade e come … de verdade, não precisa de filosofia nem sofrimento existencial para fazer isso, por que é natural do ser humano, é só exercer.

Uma referência e fonte de inspiração de Paola Carosella (conhecida chef do programa de televisão Masterchef), foi a brilhante Julia Child (que muitos não conhecem, mas podem conhecer um pouquinho no filme estrelado pela fantástica Meryl Streep – “Julie e Julia”), por esta razão Paola já até a homenageou dando o nome de um de seus restaurantes: “Julia Cocina”.

Julia Child foi a antítese do que não pode ser considerado comida de verdade, seu sucesso se deu nos Estados Unidos da década de 60, em plena ascensão da industrialização, principalmente da indústria alimentar, onde o marketing incentivava as mulheres a “fugirem” da cozinha em razão de uma comida de “conveniência”.

Ela promoveu uma verdadeira transformação nos hábitos alimentares dos americanos, ensinando as pessoas a usar ingredientes frescos e utilizá-los para fazer pratos deliciosos.

Uma mulher que aprendeu a cozinhar com 37 anos de idade, e até hoje é influência e espelho a vários chefs e à vários jovens aspirantes à chefs; ela conseguiu introduzir a valorização da comida e da forma que ela podia ser feita, em meio aquele contexto econômico oposto.

Como se fosse sim sua missão, ensinar as pessoas a cozinhar, ela foi pioneira em programas culinários, e fez tudo com seu jeito cativante e um tanto quanto excêntrico, tornar-se extremamente fácil e natural, a comida francesa nunca foi tão acessível a qualquer dona de casa: “Bom Appetit”.

Durante décadas Julia Child fez e ensinou à milhões, com certeza suas receitas livraram muitas refeições dos enlatados e foram protagonizadas por comida de verdade.

Qualquer um, mesmo não sendo esta sua profissão pode ser um bom cozinheiro, mas sentir, amar, se envolver com a comida, fazendo da cozinha um caldeirão de novas oportunidades.

Como eu milhares de pessoas são descendentes de imigrantes europeus (no meu caso italianos), muito ligados a agricultura e a relação com a terra e seus frutos, minha família sempre viveu e vive até hoje da terra produzindo comida, esta relação com a comida, suas origens e raízes é o cerne de uma transformação de paradigmas que cada vez mais se torna necessária para o mundo.

Ao estarmos mais ligados com os alimentos que consumimos e sabendo onde e como são produzidos, acabamos por mostrar um pouco do que somos e do que carregamos em nossas essências, principalmente nós mulheres.

Nossas lembranças familiares de comidas contam muito de nossa história pessoal, e cada comida que provamos feitas por outras pessoas também reflete em muito um pouco de cada história de cada um, como se cada garfada fosse um pedaço de nossas próprias histórias anônimas, porém internamente reveladas.

Por isso a importância de enaltecermos os exemplos de sucesso de nossas mulheres, para que estes cheguem como forma de incentivo para todas; esses exemplos são a base para que a nossa história possa mudar definitivamente e ocuparmos o lugar que por nossa própria essência já nos cabe, tomando frente de lideranças e transformando as nossas sociedades.

Em nosso Continente por exemplo, temos (em abundância ainda!) a única coisa que nenhum outro povo pode fabricar, a terra fértil e o sol, como podemos então pensar em seguir tendências e regras de alimentação meramente industrializada? Como não valorizarmos a alimentação de qualidade, a produção de alimentos sustentáveis?

É nesse ponto especialmente que a causa por uma alimentação de verdade, mas não por si só, e sim pela valorização cultural da produção, deve ser levada em consideração e cada dia mais transportada para que possa atingir mais e mais pessoas.

O conceito de comida de verdade mostra uma renovação das tradicionalidades, mirando porém o que mais importa, senão os ingredientes empregados, seu ponto de diferença é esse, e vem se mostrando como fundamental. A busca pela diversidade de caminhos traduz-se em muita criatividade e originalidade, sem se prender a interesses de um ou outro.

Tendo grande foco no relacionamento das pessoas com a comida, devemos buscar cativar a curiosidade das pessoas no ingrediente, com uma cozinha simples e calorosa, esta forma de preparo nos remete cada vez mais às origens do alimento, seu verdadeiro sabor e o amor envolvido em todo este processo.

JULIA E JULIE

Qual a sua reação?

Like
Like Love Haha Wow Sad Angry
2

Deixe um comentário