COMO PODEMOS SALVAR O MUNDO?

09/08/16 | Roberta de Angelis | Vida Orgânica

Estamos vivendo tempos de crises humanitárias no mundo, e o que nos chama mais a atenção são as crises ambientais e de acesso à alimentação e à água o que poderá a médio prazo levar o mundo ao colapso se não tomarmos medidas transformadoras urgentes.

Não podemos aceitar viver em um mundo onde cada vez mais se gasta com produção agrícola, porém a cada dia milhões e milhões de pessoas morrem de fome; vemos que o aumento da produtividade hoje não visa o destinatário correto e nem usa instrumentos adequados para que a sustentabilidade seja alcançada.

A única forma de revermos esse cenário é o desenvolvimento tecnológico em prol de métodos sustentáveis de produção agrícola e a transição para energias renováveis.

A pluralidade de culturas em um mesmo espaço físico é um desses modos comprovadamente eficiente, a diversidade de cultivo criam barreiras biológicas, portanto naturais, que reduzem bastante a propagação de pragas e doenças, sem a necessidade de uso nenhum agente externo, principalmente os químicos.

Os indígenas, de modo geral, têm em seus costumes tradicionais como princípio a divisão dos trabalhos entre homens e mulheres. Na agricultura não é diferente. Os homens cuidam dos trabalhos até o plantio e as mulheres dos trabalhos da colheita. A posição firme da mulher nas sociedades indígenas trouxe muito mais evolução para todos os meios produtivos envolvidos.

Na Amazônia o milho é cultivado pelos índios como suplemento à cultura da mandioca. Isto ocorre devido: o milho é menos produtivo do que a mandioca por unidade de área; o milho exige térreas mais férteis, pluviosidade regular e pede melhor eficiência no preparo dos campos de cultivo; e o milho tem de ser colhido quando amadurece, ao passo que a mandioca pode ser armazenada na terra por vários anos, ou então na forma de farinha durante meses. A batata doce, assim como outros tubérculos ricos em amido foi domesticada em áreas onde grãos como o milho não se adaptavam.

Todo esse processo nativo de agricultura de subsistência não conseguiu se sobrepor a máquina da produção rápida em larga escala visando o lucro econômico, que se implantou tanto no Brasil como em toda América, a iniciar-se na época da colonização, o que com o passar de todos estes anos corroborou para a devastação de florestas e degradação do solo fértil de nosso continente.

A volta da consciência sustentável, a necessidade de produtos mais saudáveis na alimentação das pessoas, vêm reacendendo a necessidade de implantação das práticas nativas de manejo e produção de alimentos.

Mas temos que ter políticas governamentais a favor desses movimentos, que obriguem os produtores a cultivar pelo menos em sistema de rotação variadas culturas, vale exemplificar o caso de Java, a ilha mais povoada do mundo, localizada na Indonésia, onde o governo obrigou que fossem cultivados em cada área de plantação canavieira, em sistema de rotação de 1 ano em 3, a purificação de culturas como milho, feijão, amendoim, arroz.

Estas lavouras utilizam a mesma água de irrigação dos canaviais implantados e alcançaram em pouquíssimo tempo uma produtividade elevada, tais resoluções aumentaram o rendimento médio dos produtores canavieiros e resolveram o problema alimentar da ilha, que agora tem comida (de verdade, por que ninguém vive de chupar cana), o ano inteiro. E melhor ainda, vão ter solo para plantar durante muitos séculos ainda.

Aqui no Estado de São Paulo, já existem alguns casos de Usinas que concedem à pequenos produtores, as áreas de canaviais para plantio intercalar de feijão, e as áreas das baixadas são destinadas para plantio de milho e arroz por exemplo. Estas ações são baseadas na troca de benefícios, uma vez que a utilização deste tipo de prática auxilia no controle de pragas, na adubação do solo e elevam os índices de aproveitamento do solo

Entendemos que inclusive os financiamentos agrícolas, sejam de Bancos públicos ou privados deveriam ser condicionados à mínima rotatividade de culturas no plantio, assistidos tecnicamente por especialistas ligados ao Ministério da Agricultura, com auxílio da Embrapa, tudo após a análise das necessidades ambientais, econômicas e sociais de cada região.

Falando em Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, fundada em 1973, focada na pesquisa científica, e na implantação de tecnologia para melhoria das condições da produção agrícola no Brasil, com inúmeros trabalhos publicados e premiados mundialmente.

Inclusive com publicações essenciais sobre aperfeiçoamento de métodos para melhor conhecer os solos, aprofundando as investigações sobre estoque de carbono, identificando novas fontes de nutrientes e tecnologias para seu melhor aproveitamento e insumos voltados a formações específicas, minimizando os impactos ambientais.

A sociedade precisa estar mais próxima de instituições de pesquisa coo esta, aliás esta pode ser uma das bases para nossa revolução Educacional no Brasil, utilizarmos oque temos de mais valioso, senão nossa capacidade produtiva no setor agrícola e incentivar nossos jovens a dedicarem seus conhecimentos e criatividade na busca de melhoria de tecnologia e desenvolvimento para sermos quem sabe um dia, o verdadeiro Celeiro do mundo. Até quando vamos nos manter como meros coadjuvantes nesta história?

A América Latina é exemplo de como as políticas fundiárias, de incentivo a produção e alocação de mão de obra, mal planejadas e muito mal executadas, podem resultar na conta invertida mais indesejada possível: imensas áreas de terras férteis x desperdício de produção e rendimentos baixíssimos.

Isso se traduz em números extremamente perturbadores, onde se tem solo fértil, água abundante, sol constante e um povo com vontade de trabalhar, sobram nações assoladas pela pobreza, miséria, e pela FOME.

Outra questão muito preocupante, e que urgentemente precisa de uma tomada de consciência humana, são as formas que cada dia mais  irresponsáveis para a criação de proteína animal.

São produções cada vez mais focadas na diminuição do tempo de abate e na colocação de mais cabeças em menos espaços, ocorre que estamos em um círculo vicioso tão bizarro, que se não for modificado agora, talvez estejamos por comprometer muito o meio ambiente que nos rodeia, além de nossas próprias vidas.

Os confinamentos de gado e as granjas de suínos e aves, além de cruéis, são criados para a promoção de uma engorda muito rápida, sendo a base de alimentação dos animais puramente feita com cereais (os cereais produzidos em gigantescas áreas de monocultura, com utilização de fertilizantes e pesticidas, que acabam por empobrecer o solo e consequentemente o inutilizar para o futuro e colaboram para a escassez dos recursos hídricos do planeta), além de utilizarem mecanismos químicos para encurtar o tempo de engorda, como o uso de hormônios, anabolizantes, antibióticos e até medicamentos que inibem a saciedade dos animais, fazendo-os comer sem parar, sem contar que os animais ficam em espaços mínimos deitados em suas próprias fezes, e é isso que comemos todos os dias, sabiam?

Estas produções estão cada vez mais se proliferando, em vista de lucros mais rápidos, para isso a produção de grãos em larga escala tem sido intensificada para atender a produção animal, no Brasil por exemplo cerca de 70% da soja produzida e 80% do milho cultivado, tem como destino servir de ração animal. Além disso, grande parcela de outros alimentos altamente nutritivos também são usados para alimentar o gado, como a aveia, o arroz e o trigo.

Ora, notem a falta de nexo de todo o processo: o mundo está produzindo alimentos de forma errada e degradante, não para alimentar a população mundial, mas para fomentar a produção de outros alimentos, de péssima qualidade e que transportam consigo inúmeros agentes deteriorantes de nossa saúde, resumindo estamos acabando com nosso planeta para produzir veneno suficiente para acabar com nossa própria existência.

A própria qualidade da carne muda em relação a sua forma de criação, como meu pai é pecuarista (não temos confinamento em nossa propriedade, o gado é criado em pastagens, soltos, com água em abundância, com manejo e revezamento de pasto constante, principalmente para evitar excesso de densidade populacional em um local), ele sempre nos ensinou isso com conhecimento de causa. E pasmem o custo diário para alimentar uma cabeça de gado em confinamento é de R$ 11,00; estamos deixando de alimentar pessoas para nutrir animais em prol de maiores lucros de grandes empresas.

Além das consequências para a saúde, temos consequências sociais para todo este processo, pois as grandes áreas de monocultura eliminam as policulturas de subsistência e intensificam o êxodo rural e a “favelização” das cidades.

A comida é necessidade vital de todo ser vivo, sendo a terra um local onde se gera vida, e com seus frutos se propaga a vida, muito mais razão de ser, o pensar na terra como um tesouro, uma amiga, uma mãe, que deve ser preservado e cuidado com todo nosso amor e carinho.

Todos nós podemos ajudar…se informe, se alimente corretamente, saiba de onde vêm os alimentos que consome, valorize o pequeno produtor e seu modo sustentável de produzir, incentive as crianças ao contato com a terra, assim agregaremos sempre valor às relações humanas e quem sabe às mudanças que necessitamos.

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