MULHER LATINO AMERICANA: A FORÇA DE CORAÇÕES VALENTES

06/07/16 | Roberta de Angelis | Cultura e gastronomia

Mesmo em meio a tanta desesperança, as mulheres latino americanas lutaram e lutam até os dias de hoje por determinar os rumos de nossas histórias, e mostrar que tudo que trazem em suas raízes seja reconhecido para projetos políticos, culturais e sociais.

Essas mulheres buscam a revelação da identidade latino americana, com a literatura, a música engajada, as pesquisas científicas mais originais, e a culinária original, pura e nativa.

São pioneiras em suas participações históricas como nenhuma outra no mundo, verdadeiras protagonistas da própria história do Continente, desde a chegada dos colonizadores até hoje.

Amadas e as vezes odiadas, ou mal compreendidas, muitas vezes motivadas por ideais concretos e implacáveis, mas por muitas vezes movidas pelo amor à seus companheiros, travaram lutas por tudo que acreditaram.

Muitos são os exemplos de destaque de nossas guerreiras nesta história tão movimentada e cheia de fatos marcantes, mas podemos percorrer a conhecer melhor algumas delas.

Como a argentina Victoria Ocampo, escritora e editora atuante, sempre lutou para que a mulher exercesse sua parte intelectual e pensante, contribuindo assim para a evolução da autoafirmação latino americana.

Como editora fundou a revista “Sur”, que pela primeira vez remetia às claras a ideia de união de das identidades culturais do Continente, abrindo a revista a escritores famosos e também desconhecidos. A causa de seus ideais políticos contrários ao governo de Peron levaram-na à prisão.

Ela deu notoriedade a escritores importantes, alguns proibidos em seus Países, e a revista “Sur”, foi marco de início de afirmação da identidade geográfico cultural do nosso continente.

Foi nomeada doutora “honoris causa” em 1967 pela Univerdade de Harvard, membro da Academia Argentina de Letras em 1976, sendo a primeira mulher a ocupar tal cadeira; fundadora da “Unión Argentina de Mujeres”, tendo deixado um legado de grandes obras e ideais para todas as mulheres latino americanas.

Atualmente se comemora o dia 5 de Setembro como o Dia Internacional da Mulher Indígena, porém poucos sabem, a razão desta data, que é em homenagem a mais uma mulher que lutou por nós, com a própria vida, a guerreira aymara Bartolina Sisa, morta em 1782, quando esteve à frente das tropas contra a opressão dos conquistadores europeus, chegados à Bolívia.

Esta mulher tornou-se símbolo de luta e resistência, uma referência inesquecível para as batalhas que travamos ainda hoje, um dos maiores exemplos de liberação feminina.

Nesta data Bartolina após muita luta foi sentenciada a morte, levada nua pelas ruas de La Paz e torturada de todas as formas, inclusive e cruelmente sua língua foi arrancada para calar os gritos. Partes de seu corpo foram levados a locais simbólicos de resistência indígena para exibição pública.

Até hoje, principalmente para as mulheres bolivianas ela é exemplo e fonte de inspiração para suas lutas e conquistas de seus ideais.

Pouco tempo depois, em 1792 nascia no Brasil, uma verdadeira heroína de nossa história, a baiana Maria Quitéria, lutou literalmente na força militar de reconhecimento da independência do Brasil.

A baiana, com grande habilidade no uso da arma de fogo, inscreveu-se como voluntária para lutar contra as províncias que não reconheciam Dom Pedro como imperador. Maria Quitéria teve atuação destacada em lutas importantes. Foi condecorada com a Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul.

É certo que as mulheres latino americanas sempre participaram de movimentos camponeses, ingressando assim em militâncias políticas, sofrendo perseguições tanto quanto os homens.

Sempre encabeçaram e até hoje encabeçam lideranças, mesmo que apenas em suas comunidades locais, com o propósito de buscar o bem estar comum aos seus, mesmo sofrendo violência e preconceito ainda atualmente, o que acontece em razão de muita impunidade.

Os movimentos pela emancipação feminina foram formados inicialmente no México, Chile, Argentina e Brasil, embora tenha sido o Equador, o primeiro país da América Latina à conceder o direito de voto às mulheres em 1929, seguido do Brasil em 1932 e Argentina em 1947.

Muitas ativistas pela emancipação feminina como Maria Jesus Alvarado Riviera, do Peru e Dra. Zea Hernandez, da Colômbia foram presas em seus respectivos países como prisioneiras políticas, em razão de suas atuações nos movimentos pela liberdade e participação política feminina.

Estes movimentos culminaram com uma verdadeira invasão das mulheres às ruas das grandes cidades latino americanas na década de 30.

Os envolvimentos políticos e sociais das mulheres latino americanas ao longo da história sempre tomaram proporções e reflexos que por muitas vezes mudaram todo o rumo dos acontecimentos.

As mulheres latino americanas também sofreram perseguição e exílio, machismo, maus tratos e abusos.

O Continente experimentou além de uma colonização exploratória e violenta, épocas de ditaduras militares que lembraram em muito a colonização, a ditadura argentina foi uma das, se não a mais violenta e marcante, tendo cometido violências sobre todas as classes de pessoas e fechado o País para o resto do mundo.

Esta ditadura que tinha como maestria sumir com os corpos das vítimas e opositores, fez verdadeiro massacre, mas nosso intuito (pelo menos neste momento) não é questionar o passado, não é julgar as razões, nem tentar encontrar respostas para atos e ações já consumadas, mas revelar a importância dos corações de tantas mulheres, que dentre este milhares de “desaparecidos”, tinham seus filhos, esposos, netos, sobrinhos e amados, e nunca puderam se conformar com suas partidas.

Uma perda assim nunca pode ser superada, pois nem ao luto é dada a oportunidade de nascer, a única coisa que permanece é um vazio sem explicação e uma esperança quase que eterna de que um dia voltarão a ver aquela pessoa.

Diante de todo esse contexto na década de 70 nesta Argentina tormentosa, as mães, esposas, avós destes milhares de “desaparecidos” resolveram sair as ruas de Buenos Aires em busca de alguma resposta, as conhecidamente chamadas “Las Madres y Abuelas de Plaza de Mayo”, e com o passar dos dias aquelas que eram algumas, tornaram-se mais e mais em quantidade e em vontade de lutar por aqueles que mais amavam, o movimento ficou tão robusto que foi fundada a Associação da Mães da Praça de Maio.

Por óbvio a maioria destas mulheres nunca tiveram respostas sobre o paradeiro de seus entes amados, e ainda os esperam chegar em casa diariamente, porém a luta tornou-se sólida, e o tempo e o amor que tinham a dispender, foi transferido para outros filhos de outras mães, que nunca chegaram a conhecer.

É inusitado lembrar destes “desaparecidos”, neste período, além dos militantes, muitas de suas crianças, ainda em tenra idade foram levadas, e criadas como filhos de famílias de militares ou de seus conhecidos, até hoje não sabem sua verdadeira história e origem.

Mas isso não foi “criação” original dos militares ditadores, pois na época dos grandes conflitos territoriais entre indígenas argentinos da região dos pampas e cordilheiras e os criollos (provincianos da região de Buenos Aires, mestiços com espanhóis), onde se promoveu verdadeiro extermínio dos nativos do sul do País, as mulheres e crianças eram arrancadas de suas comunidades para servirem aos “brancos”, e as crianças criadas em seus meios, talvez pelas características físicas marcantes acabavam por entender que não pertenciam àquele mundo, mas as miscigenações constantes resultaram em total esquecimento das origens.

Infelizmente temos o dom de repetirmos a história, apenas naquilo que deveríamos deixar como aprendizado negativo e enterrado para sempre no passado, mas insistimos em reproduzir aquilo que causou nossas maiores feridas.

A luta das Mães da Praça de Maio continua, agora não apenas para buscar a condenação dos torturadores e assassinos da ditadura, mas também para lutar por direitos humanos e outras causas em geral.

Elas têm programas de rádio, organizam manifestações e até criaram uma universidade. Mas quem é mulher e mãe sabe que a esperança de rever um filho nunca cessa dentro do coração, e essas mulheres continuam nesta esperança sempre: “HASTA LA VICTORIA SIEMPRE QUERIDOS HIJOS”.

A Argentina produziu e produz até hoje referências culturais ao Continente, muitos ícones culturais inclusive nascidos dos momentos históricos mais trágicos e violentos, além da escrita, como vimos mulheres que fizeram de suas palavras meios de propagação de suas angústias, sonhos e desejos, a música também nos conduz pela história de nossas raízes e eterniza momentos.

Da música nasceu outra mulher ícone da América Latina, argentina nascida em San Miguel de Tucumán, local de importância marcante para a Argentina, pois lá foi declarada a independência em 09 de julho de 1816, e no mesmo dia do ano de 1935, no mesmo local, nascia Mercedes Sosa.

Mercedes Sosa é síntese da própria história da América Latina, de origem da mistura de europeu (descendente de franceses) e indígenas, sempre se atentou para a busca das raízes tradicionais e pela união dos povos latino americanos.

Sua maior luta política aconteceu na época da ditadura militar, muito censurada, chegou a ser presa e inclusive a ter que se exilar na França,

Que sua vontade de união seja propagada sempre mais e mais por sua voz, que já eternizada, nos emociona e nos faz pensar, que sua “Canción con todos”, seja hino desta união que um dia nos libertará: “Toda a pele da América em minha pele, e anda em meu sangue um rio, que libera minha voz, seu caudal. O Sol do Alto Peru, Rosto, Bolívia, Estanho e solidão, Um verde o Brasil, beija a meu Chile, Cobre e Mineral, Subo ao Sul, para entranha América e total. Pura raiz de um grito destinado a crescer e espalhar, Todas as vozes todas, Todas as Mãos todas, Todo o sangue pode ser canção no vento. Canto comigo, canta Latino americano. Libera sua esperança com um grito na voz.”

Todas essas lutas e exemplos, nos mantem como espelhos do passado ao que pode se tornar o futuro, principalmente de nós, mulheres latino americanas, sonhadoras, passionais, mas acima de tudo lutadoras.

Que nossos corações possam mais e mais pulsar juntos rumo ás nossas causas e ideais, e que unidas possamos sim, fazer a diferença e fazer valer a pena.

 

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