ORIGENS: CORAÇÕES QUE ALIMENTAM

03/08/16 | Roberta de Angelis | Cultura e gastronomia

No último programa Masterchef Brasil os participantes reviveram suas lembranças familiares, suas origens, devendo recriar suas receitas de família, a mais verdadeira comida da alma que pode existir, nada mais pode ter propriedade de uma verdade senão nossa própria história, a minha se combina com tudo aquilo que do coração vêm com força.

Sou mulher, ainda menina no coração, descendente de uma família de predominância italiana, com traços e pitadas de algumas outras influências, mas como qualquer um que me conhece diz, é fácil de reconhecer pelo nível de altura da voz e os tremendos movimentos das mãos que se combinam em qualquer conversa, seja tenra ou acalorada, que aqui habita um ser italianizado.

Toda história tem suas marcas, e cada família transforma essas marcas em tudo que vive ou sobrevive, é muito interessante perceber que cada um de nós é singular, mas mesmo não existindo uma só pessoa igual a outra, a família, a história e suas marcas conseguem similaridades entre indivíduos que talvez nem o cosmo explicaria, mas que para eles próprios faz todo o sentido.

Eu sempre digo que minha história talvez não tenha começado com o nascimento, mas sim com uma perda, pois inevitavelmente toda perda vem acompanhada de uma renovação, de uma nova vida. E nenhuma vida começa ou acaba sem um propósito, e assim começa minha história, com um fim que gerou o começo de tudo aquilo que conheço como meu e eu.

A partida de minha mãe ainda muito cedo, eu pequenina com menos de 2 anos e meu irmão com apenas 6 meses de idade, talvez tenha sido muito mais arrebatadora aos seus pais, do que a nós seus filhos, muito pela falta de lembranças, por que o que nos traz emoções de verdade são as lembranças sejam tristes ou felizes.

Por isso que acredito que mais vale um punhado de decepções das tentativas de viver que travamos todos os dias, do que a ilusão de nunca ter vivido de verdade, e colecionado um “tiquito” de lembranças, de pessoas, lugares, momentos, cheiros, sons e principalmente sabores.

Nunca me interroguei pela falta de lembranças de uma pessoa que com certeza deixou mais do que apenas “os olhos verdes” em mim, deixou marcas, deixou raízes, deixou algo de si que deve florescer a cada momento de crescimento e evolução do meu eu.

Mas o que ela nos deixou de mais valioso, foi a família que temos, um avô – pai, uma avó – mãe, desde sempre e para sempre, que naturalmente já estavam tomados nos seus postos de pai e mãe, antes dela agora nossos; deles eu tenho tudo, desde o amor incondicional, a generosidade e a sabedoria, até os defeitos, que sempre fazemos questão de honrar como tradição familiar.

EU ELA ELE

Acho que deste pai eu consegui angariar além do nome (Roberto = Roberta), toda a minha personalidade, dai veio o falar alto, as mãos enlouquecidas tentando explicar as falas, por que até parece que não estão me ouvindo, precisamos gritar ou algo assim? é assim mesmo que somos. Impulsivos, falantes, sonhadores e bem mandões, e o amor incondicional por cachorros, ele nos denomina “cachorreiros”.

Ele, sempre teve pra si que iria vencer, por isso logo cedo saiu de casa e como ele mesmo diz “pulou cedo pra agarrar”, nos seus relatos ele nos remete a cada uma das atividades e as histórias que envolviam cada momento de sua vida com tamanha paixão, que o trajeto sempre parece mais divertido que a chegada.

Já foi jóquei, motorista de caminhão, tirador de leite e assim foi trilhando seus caminhos, mas seu sonho era firme e determinado, ter um sítio com algumas vaquinhas de leite, para fazer o que sempre foi sua paixão, ser um criador leiteiro.

Os caminhos não foram fáceis, teve muita aventura, dor, cansaço, fome, desbravamento – ele sim pode falar que andou pelos quatro cantos do Brasil, e literalmente com facão na mãos desbravou lugares totalmente inacessíveis no norte – mas ele conseguiu muito mais do que aquele sonho, hoje é um grande produtor pecuarista, reconhecido pelo seus processos de manejo do rebanho, e da alta produtividade, tudo fruto de um autodidata, formado pela escola da vida, que não conseguiu terminar nem a escola secundária, por que simplesmente abominava tudo aquilo, mas que sempre nos ensinou a valorizarmos a escola, os estudos e o conhecimento.

Seu avô, italiano, daqueles bem “carcamanos”, sua mãe e suas tias, sempre foram suas referências gastronômicas, italiano além de comer bem gosta só da comida de casa, e sempre em abundância, tem prazer em comer, é obvio que isso ele também passou para nós, inclusive todas suas neuras sistemáticas com a comida; lembram-se do drama da cor do pão que já compartilhei com vocês, né?

Ele nos conta cheio de satisfação todas as vontades que passou em sua infância e juventude (todas relacionadas a comida), todo o sofrimento em ter que fazer trabalhos manuais aos tios para depois de longos e longos dias poder juntar algumas moedas e disfrutar por alguns breves segundos de uma garrafinha de guaraná (joia preciosa naquela época), ou de ter muita dor de barriga por comer escondido doce quente, além da dor no “bumbum” dos castigos que levava por comer fora da hora.

Toda essa vida vivida com plenitude, e muitas lembranças para recordar, foram a minha escola de vida, e dai eu comecei a trilhar o que eu acabei me tornando; qual criança, menina principalmente, que lê jornal com o pai no início da alfabetização? E sempre foi tão divertido, aliás ainda é, pois os enredos de nossas conversas intermináveis até hoje, política e economia; depois que me formei em Direito, o direito também tornou pauta em algumas situações, e poxa já estava esquecendo a comida, principalmente as vontades, sempre tem aquela frase: “to com uma vontade de comer aquilo (…)”.

E nossos gostos se mantém, carne (bem mal passada por favor!), linguiça calabresa fresca (bem apimentada e seca naturalmente para comer de aperitivo) e doce (de preferência em quantidades absurdas!).

Isso é formação, isto é ser quem somos, saber de onde viemos e no que podemos nos transformar, por que espelho é essencial tanto pra corrigir as imperfeições como para servir de norte.

Mas não foi ainda ai que começou a minha história, e sim um pouquinho antes, em um passado do qual não participei, mas que fez toda a diferença, foi quando ele – meu pai, conheceu ela – minha mãe, faz um tempinho, mas nem tanto tempo assim, na década de 50, os casamentos já não eram mais arranjados pelas famílias, mas eram fundamentais para o início de uma vida adulta.

Ela, filha caçula de três meninas, sempre rodeada de afagos e mimos da família, com propensão nata as artes, tocava piano como ninguém quando criança, mas acabou não levando a diante; sempre pintou e desenhou muitíssimo bem, com dons naturais, mas também optou por não levar a diante; na verdade ela levou adiante somente a nós mesmo, e isso já foi uma grande obra.

Os dois se uniram por vontade própria, e seu começo de vida talvez seja o ponto mais crucial da formação do que conhecemos por família, pelo menos essa nossa.

mae e pai

Para mim, minha mãe nasceu para ser mãe, esposa e dona de casa; mesmo que observando o entusiasmo com que ela olha nossos percursos profissionais, talvez ultimamente me deixem na dúvida, de que algum sonho tenha ficado esquecido lá atrás.

Mas o que foi é o que é, e sim para mim (como para qualquer filho do planeta) ela é a melhor cozinheira que já conheci, mas antes de falarmos de comida, quero voltar a um lugar todo especial.

Um pequeno sítio em um distrito de uma cidade do inteiro de São Paulo – chamado Descalvado, é o lugar, já fui lá uma vez, por que se não fosse, ia manter essa vontade até meus últimos dias.

Como não conhecer o lugar onde seus pais, cada um falando de uma forma e separadamente, afirmam ter passado os momentos mais felizes de suas vidas. Curiosamente – e com o passar dos anos, vai deixando de ser curioso e fazendo todo o sentido – foi uma das época de “vacas magras” de suas vidas, mas de “vacas muito felizes.”

Lá meu pai exercia sua maior paixão, criava suas vacas leiteiras (ele é apaixonado pela raça Jersey), e delas tirava seu leite, deste leite minha mãe fabricava queijo e manteiga, ela criava suas galinhas soltas e porcos, e de sua carne e seus ovos fabricava delícias na cozinha.

Eles mantinham uma horta e um pomar extremamente rico em variedade, com careiras de laranjeiras, caquizeiro, limão galego, entre outros, mas mais do que importante a artista principal de qualquer pomar ou lugar que meu pai possa ser proprietário, uma carreira perfeitamente bem cuidada e irrigada de uma forma toda especial (gotejamento de água constante) de Jabuticabeiras.

É sem dúvida a fruta ou talvez o alimento preferido dele, ele mantém verdadeira obsessão pela jabuticaba, eu nunca conheci ninguém com o vício igual o dele, a ponto de pedir para um senhor que vende jabuticabas no mercado para ir ao seu sítio chupar a fruta diretamente do pé, por que é a única forma que ele admite para o consumo desta fruta, saiu dali não presta mais.

Orgulhoso sempre nos ensinou: “Só aqui no Brasil dá Jabuticaba”, talvez cientificamente isso não seja verdade, pois em locais com as mesmas características naturais é possível o cultivo com certeza, acredito que na Argentina e no México já se produzem jabuticabas, mas prefiro que ele mantenha esse orgulho brasileiro.

Neste cenário minha mãe foi aprendendo tanto as receitas tradicionais de sua família por intermédio de sua mãe, como da família do meu pai, pela mãe dele e as tias, em especial uma tia muito querida, que tive a satisfação de conhecer e conviver nos meus primeiros anos, Tia Zulma, uma mulher muito a frente de seu tempo, foi morar em São Paulo bem moça para estudar e mesmo diferente das mulheres de sua época calcou êxito profissional e optou por não ter filhos.

E em meio a essas heranças gastronômicas fomos criados, e criando nossos gostos, sempre fomos uma família afeiçoada à comida e principalmente ao ato de comer, na mesa sempre ocorreram os eventos mais importantes, bem como os conflitos.

Como minha mãe sempre dizia: “Vocês sempre escolhem a hora de comer para começar né?”, mas sempre foi a mesa e estas comidas que nos uniam, para quebrar o “gelo” de um conversa, para nos aproximarmos.

De alguma forma é assim até hoje, as vezes somente a execução de algumas dessas receitas é a única forma de revivermos momentos que já se foram. Vou tentar compartilhar muitas dessas receitas com vocês, por que quero que todo esse nosso amor possa chegar no máximo de lugares possíveis; e vocês quanto amor querem compartilhar?

Qual a sua reação?

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