PÃO BRANQUINHO OU PÃO QUEIMADINHO ?

07/06/16 | Roberta de Angelis | Cultura e gastronomia

Nossa maior riqueza são nossas raízes, em razão disto iniciei uma nova jornada de descobertas, partindo do início de tudo que somos: nossa Cultura, o que nos faz ser quem somos, e da qual nunca podemos ser distanciados. E qual a melhor maneira de expressarmos quem somos senão na Mesa? Comer é bom e traz prazer, mas acima de tudo é um ato de relacionamento entre pessoas, e é por isso que estou em busca do que chamo de “Corações que Alimentam”.

Nesta nova viagem gostaria de trazer a força das nossas raízes que fazem crescer todos nossos frutos e flores na vida, em forma de sabor, cheiros e texturas, cozinha de coração para valorizarmos o bem mais supremo, senão nossas vidas e nossas histórias.

Com base nesta relação entre cultura e comida, é que podemos explorar os mais diversos modos de cozinhar, como um dos mais rudimentares e mais emblemáticos, onde minha mãe já cozinhou por muito tempo, um belo forno à lenha, que mesmo sendo a primeira e única forma de cozer, assar e tostar, senão pelo contato com o fogo, traz carregadas doses de encanto, e cá pra nós, um gostinho todo especial à comida.
Foi justamente o ato de cozinhar os alimentos que separou a humanidade na evolução das espécies, pela racionalização em relação aos outros seres vivos.

O fogo é uma das invenções mais marcantes, que trilhou os caminhos da espécie humana rumo a construção das civilizações, e o emprego do fogo no ato de se alimentar evoluiu nossos hábitos sociais, cozinhando, o homem descobriu que podia restaurar o calor natural da caça, acrescentar-lhe sabor e torna-la mais digerível. Verificou também que as temperaturas elevadas liberam sabores e odores[1], aqui o homem deixa de alimentar-se apenas para sobreviver, mas a sentir prazer em fazê-lo.

Criou-se assim um novo elemento sociológico e cultural à humanidade, pois a relação com a comida (pelo gosto pela comida) gerou possibilidades de novas e desconhecidas inter-relações humanas, e muitos costumes e rituais foram criados a partir dai, e marcaram milhares de povos em suas peculiaridades.

O estralar da lenha com o fogo, o cheiro da fumaça misturado aos das comidas que com o calor evaporam toda sua essência e se misturam como música diante daquele clarão intimidador e quase insuportável aos olhos da brasa incandescente.

O fogo é sim o principal elemento para a comida, revestido de encantamento e misticismo em várias culturas, muitas lendas surgiram, uma dessas, a lenda indígena dos índios da etnia KAINGANG, sobre a origem do fogo é digna de réplica: “Havia uma índia chamada Laravi, muito diferente dos outros, ela conhecia várias coisas que os outros não conheciam e uma delas era o fogo. Ela guardava o fogo em sua habitação e não compartilhava com ninguém. Tal segredo despertava muita curiosidade no guerreiro Fijetó, que sabia da sua existência. – Vou me transformar numa gralha branca e então roubarei o fogo. – pensou ele.
Sobrevoando a floresta, o guerreiro observou que Laravi estava brincando no rio. Então, de repente, Fijetó, em forma de gralha, jogou-se na água, deixando a correnteza levá-lo até bem perto da índia, que o pegou e levou para dentro da sua habitação para secá-lo ao lado do fogo.

Quando as penas secaram, o guerreiro, ainda transformado em gralha, pegou com o bico um pedaço do fogo e fugiu. Fijetó, em forma de gralha, voou até uma árvore. Depois, levando o fogo no bico, foi até a aldeia, mas o peso do ramo fez com que ele não aguentasse voar por muito tempo, por isso decidiu arrastá-lo pela floresta, provocando um enorme incêndio.

A floresta queimou durante dias e dias, e índios de diversas tribos ajudaram-se para apagar o fogo. E, assim, aprenderam também a fazer fogo. Desde aquele dia, as fogueiras de todas as tribos estão sempre acesas.”
Estas fogueiras acesas, ainda hoje são a origem de toda nossa tradição culinária. E o ponto de “fogo” em cada alimento, tornou-se questão cultural e de gosto pessoal.

Esse tema nos remete mais uma vez às nossas próprias experiências, eu sou defensora do “queimadinho” bom para dar maior sabor aos pratos, porém que ainda possui fugazes opositores.
Não me sinto sozinha nessa “luta”, reparei que a cada prato “queimadinho” divulgado nas redes sociais da chef (“Masterchef”) Paola Carosella, os “críticos” são ferronhos em com repulsa gritar: “ESTÁ QUEIMADO”, quase um ódio generalizado a boa comida moreninha.

Meu pai sempre nos ensinou desde pequenos a comer pão “moreno”, como ele mesmo denominava, aquele que estivesse sim mais queimadinho, fomos proibidos de comer pão “branco”, e ele nos convenceu com sua teoria, um tanto quanto cientifica, de que a massa do pão que não foi bem assado, não estava cozida e ia crescer dentro da nossa barriga.
Não sei se foi o medo da minha barriga explodir, ou realmente por que o pão moreninho é mais saboroso, que colocou a mim e a minha família numa classe segregada da sociedade: os que pedem pão “moreno” na fila da padaria.
É sério, é uma questão de ordem social essa história da cor do pão, sempre que chegamos a qualquer padaria falamos em alto e bom tom: “Por favor os mais moreninhos que você tiver”, imediatamente os olhares da maioria esmagadora da fila (que pedem os mais branquinhos), já voltam para gente, como se não soubéssemos o erro que estamos cometendo.

É assustador, tamanha reprovação gerada no ambiente, como se nós fossemos os causadores da existência marginalizada daqueles pãezinhos moreninhos e crocantes, que quase estragam a existência dos outros branquinhos.

Eu mais do que depressa, e faço isso em todas as vezes que vou comprar pão, me afirmo nessas situações: “Lá em casa ninguém come pão, se não tiver quase queimadinho.” E não comem mesmo!
A segregação do “moreninho” é tamanha que as padarias começaram a separá-los em cestos diversos, óbvio que o cesto destes coitados é bem menos populoso do que os queridos e amados “branquinhos”. Em pleno século XXI estamos vivendo o Apartheid do francesinho de cor.

Mas cá pra nós, juro que não entendo a preferência nacional pelos branquinhos, consigo sentir quase o gosto de massa crua quando tento comer, por que lógico que na maioria das casas que frequento é só isso que tem, mas aquele pãozinho moreninho, e por isso capaz de proporcionar aquela casquinha crocante, é tão saboroso, que não dá pra mudar de gosto. Mesmo assim, me abstenho sempre de qualquer observação preconceituosa aos amantes do branquinho.
Para não me sentir tão sozinha nessa luta de classes, gostaria de manifestações “pró queimadinho”, e do queimadinho bom, aos excluídos da fila do Pão, vamos levantar a bandeira: “Chega de amargura que o queimadinho dura!!!!!” #queimadinhobom.

pao

 

De Caçador à Gourmet: uma história da gastronomia”, Ariovaldo Franco, Senac, 2010, 5ª Edição, p.17.

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