VOCÊ É O QUE COME

24/10/16 | Roberta de Angelis | Vida Orgânica

Ao optarmos por nosso bem estar e de nossa família, devemos começar pela alimentação, negar os agrotóxicos “venenos” que ingerimos em nosso dia a dia, e definitivamente optar por comida boa, de verdade e limpa.

A maioria das pessoas já deve saber o que faz bem a sua saúde, mas isso por si só não evita o consumo de alimentos industrializados; nas famílias de menor renda per capita o consumo de alimentos como refrigerantes, biscoitos, congelados, salgadinhos é uma forma de acúmulo de “status social” e se desassocia da verdadeira razão de ser de nos alimentarmos.

Tais mudanças de atitude invariavelmente desaguarão em uma mudança um pouco maior, que agora sai de nós e alcança outros, como a necessidade de mudança e implemento das práticas agrícolas atuais, frente a uma nova relação de demanda e consumo, o que tornará a agricultura orgânica familiar mais fortificada e as condições econômicas e sociais de pequenos produtores mais propensa para uma intensificação de sua produtividade, produção de qualidade, livre de agrotóxicos.

Não é plausível imaginar que 56% dos alimentos produzidos no mundo vêm dos pequenos produtores, e mesmo assim o mercado é monopolizado apenas por algumas grandes corporações.

A problemática esta na falta de critério que temos em nosso mercado interno; enquanto na Europa e Estados Unidos alguns agrotóxicos são proibidos, aqui eles são permitidos e fabricados por empresas europeias e norte americanas, o que nos leva a uma única conclusão quem produz sabe que esta vendendo “Veneno” e não quer isso nem para si mesmo.

Essa pressão que vem de baixo para cima, do “pequeno” consumidor, ao “pequeno” produtor, pode sim atingir em cheio o grande produtor e a indústria alimentícia.

O norte dessa mudança de mentalidade não esta apenas em uma pequena porção da sociedade que busca uma forma de vida alternativa, ou que pensa o mundo de uma forma diferente em sua individualidade.

A maior forma de se efetivar essas mudanças esta no alcance maior da qualidade do produto apresentado, na excelência da aplicação destes na construção de uma alimentação de alto nível de valor agregado.

Para tanto necessitamos de figuras que realmente valorizam todo o sistema de produção, inclusive desde a importância “espiritual” da relação do alimento com a terra que o faz nascer, e transporte essa importância para aplicação dessa matéria prima em sua forma mais purificada à gastronomia de impacto.

O impacto deve vir em razão da qualidade, o consumidor optar pelo sabor de algo que originalmente vêm da terra, e é lapidado pelo coração de mãos tranquilas e apaixonadas, em forma de comida vira gastronomia de qualidade e de forte alcance.

A qualidade alimentar deveria ser a mais presente preocupação dos Governos atuais, devido aos números cada dia mais preocupantes, a população brasileira por exemplo, nos últimos anos, principalmente com a melhoria da economia, experimentou a ascensão de classes sociais, o que é ótimo com certeza, porém pela falta de investimentos em educação e informação, o aumento do poder aquisitivo da população veio acompanhado do aumento do consumo de alimentos industrializados e de péssimo conteúdo nutricional.

Até a década de 80, nem 10% da população brasileira estava acima do peso, com a substituição de refeições cotidianas, como o tradicional arroz, feijão, carne, ovo e salada, por “fast food”, refrigerante, doces, bolachas etc., culminou com um percentual de 60% da população brasileira acima do peso e com propensões a sofrer de algum tipo de doença em virtude da má alimentação.

O próprio IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, já mensurou que nos últimos 20 anos, o brasileiro está trocando o hábito super saudável de comer arroz e feijão pelas refeições rápidas lotadas de gorduras.

Aliás nosso famoso “Arroz com Feijão”, que esta presente nas mesas de todas as famílias brasileiras, independente da classe social ou poder econômico, traduz-se num casal perfeito em termos nutricionais, os aminoácidos que o feijão possui, o arroz não tem e vice-versa, por isso combinados juntos possuem ótimo valor proteico no prato do brasileiro.

Além disso, o arroz com feijão é verdadeira tradução de toda miscigenação que tanto valorizamos em nossa culinária, o arroz é de origem asiática e foi introduzido no Brasil pelas mãos dos colonizadores, já o feijão era cultivado pelos povos ameríndios em variedades ricas e diferentes entre si, desde muito antes da chegada dos “brancos” à América Latina.

Ora, isso sim é mostra de simplicidade na alimentação que promove saúde e marca costumes que devem sim ser cultivados e propagados à gerações futuras.

Meus avós sempre diziam, antigamente quando comíamos tudo feito na banha de porco, fritura nunca foi um problema, éramos todos magros e saudáveis; todos eles comiam glúten, lactose e gordura animal numa boa, será que nossos conceitos realmente estão corretos? Ou temos medo e preguiça de começar a mudar nossas escolhas?

A vida mais simples também nos da exemplos de como a comida “de verdade” é saudável e pode nos levar a muitos e plenos anos de bem estar, o senhor Antônio, com 90 anos de idade é um personagem emblemático disto, ele e a esposa dona Olindina (estão casados a 70 anos) e tiveram 10 filhos, moram em seu sítio em Iacanga, próximo a Bauru, lá eles cultivam sua horta, plantam feijão e milho e possuem criação de gado e galinhas, apenas para a própria subsistência.

Eles se alimentam praticamente do que produzem no local, sem adição de qualquer agente químico ou agrotóxico, para o senhor Antônio, esta é a receita de tanta saúde: “Não gosto de comida enlatada, também não gosto de doce, talvez isso tenha ajudado a preservar minha saúde. (…) Eu não tomo nenhum remédio, e minha pressão está sempre em 12 por 8. E só fui ao médico uma vez quando era criança e agora a dois anos, quando tomei uma picada de cobra jararaca. Ah, e eu ainda matei a cobra antes de ser socorrido!.”[1]

Como o senhor Antônio, muitos e principalmente os mais experientes, que passaram por períodos em que a industrialização não era maciça, nem acessível a todas as pessoas, são exemplos físicos de que verdadeiramente estamos cometendo muitos erros em nossa alimentação e na alimentação de nossas crianças.

Precisamos começar a dar valor a estes exemplos de boa saúde e vitalidade para mudarmos nossos hábitos, ao invés de buscarmos soluções medicamentosas e conceitos de momento (saúde virou moda e meio de vida para muitas pessoas), que nos levam cada vez mais para o consumo de substâncias bem apartadas do natural.

Mundialmente doenças cardiovasculares, câncer e diabetes mantam mais do que qualquer outra causa, mantam mais que as última guerras mundiais, e muito mais rápido; e todas mantem relação direta com o tipo de alimentação de cada indivíduo.

Muitas de nossas crianças e jovens nunca comeram uma comida boa de verdade, ou até comida de verdade, a maioria não imagina nem o que come todos os dias.

A proposta de uma agricultura mais sustentável, não deve significar a demonização do lucro, da rentabilidade para o produtor e seus funcionários, mas a busca da racionalização destes, que são sim negócios de capital e meio, com inclusive o aumento da produtividade, de forma paritária e com existência continuada garantida.

A produção de alimentos massificadamente praticada na atualidade não tem o objetivo de alimentar a população mundial, uma vez que mais de 1 bilhão de pessoas pelo mundo não tem acesso à alimentos.

Além de todos estes fatores de risco de mantermos nossos hábitos e rotinas alimentares como agora, o próprio encantamento civilizatório, que a comida nos relevou nos anos de evolução da humanidade esta se perdendo.

Precisamos de novos empreendedores, principalmente no ramo da gastronomia e culinária, governantes atentos a este tema de vital importância e pessoas dispostas a gostarem mais de si e de seus, que possuam a consciência de todo o meio, desde a produção de alimentos para as consequências de apresentar sempre comidas saudáveis e de procedência conhecida, com certeza dá mais trabalho, mas faz parte de uma obrigação de cunho social e humano.

[1] Agradecemos o jornalista Thiago Navarro que brilhantemente publicou uma reportagem inteira contando a história do sr. Antônio, na edição de 26 de julho de 2015 do Jornal da Cidade – Bauru/SP, dando a ele e a pessoas como ele a devida importância, de exemplo de vida e de que quanto mais simples a vida é encarada, o melhor podemos ter dela.

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